Setor da saúde prepara-se para mudanças que contribuam para equilíbrio econômico

Seminário promovido pelo Grupo Fleury e pelo SINDHOSP discutiu os impactos das transformações do setor

A capacidade do setor de unir-se e contribuir para o equilíbrio econômico do todo, desenvolvendo soluções que coloquem a saúde das pessoas em primeiro lugar, foi enfatizada no seminário de saúde suplementar promovido pelo Grupo Fleury e pelo Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SINDHOSP).

“É possível, sim, contribuir para o indispensável equilíbrio econômico do sistema. Agora, precisamos aumentar a velocidade dessas soluções”, afirmou o presidente do Grupo Fleury, Carlos Marinelli, que ao lado do presidente da FEHOESP e SINDHOSP, Yussif Ali Mere Junior, participou da abertura da 12ª edição do evento realizado em São Paulo no dia 16 de abril. O seminário abordou impactos e transformações tecnológicas vistos no setor da saúde por meio do tema “A saúde está mudando. Estamos preparados?”.

De acordo com Yussif Ali Mere Junior, que respondeu à pergunta tema do dia, a maioria das empresas não está preparada para as transformações em curso, e este é o principal desafio do setor: levar a qualidade da medicina que se pratica nos grandes centros para toda a população.

“Nós precisamos, cada vez mais, abrir discussões como estas para poder caminhar. A saúde está mudando, já mudou muito e vai mudar muito mais. Quem está na área há mais de 30 anos pode ver isso na sua prática diária; a saúde evoluiu muito, e precisamos continuar evoluindo”, explicou o presidente do SINDHOSP.

O presidente do Fleury concorda. Ele citou os avanços obtidos nos últimos anos em questões relacionadas à gestão corporativa e à medicina de precisão, mas também chamou a atenção para a interdependência de toda a cadeia da saúde no que diz respeito à sustentabilidade do setor. “Não podemos nos enganar: estamos todos no mesmo barco. Reconhecer a interdependência entre nós é uma premissa mutatória”, disse.

Após a abertura, iniciaram-se as apresentações. O gestor médico de Inovação do Grupo Fleury, Dr. Gustavo Meirelles, mostrou as diversas inovações em medicina diagnóstica e seus benefícios, tanto para os pacientes quanto para os profissionais da saúde. Essas tecnologias já são realidade e instigam, cada vez mais, a mudança no perfil de atuação do médico, integrando-o no atendimento e priorizando o cuidado com o paciente.

Já Joel Formiga, coordenador de Inovação Digital na Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, apresentou os benefícios da implantação do aplicativo Agenda Fácil, para agendamentos e cancelamentos de consultas ou exames em Unidades Básicas de Saúde (UBS). Também falou sobre quão importante é integrar dados dos pacientes em um único formato que evite o desperdício e a descontinuidade assistencial – quando as informações geradas em consultas e exames não são resolutivas.

Para comentar os assuntos, foram chamados ao palco especialistas do setor que levaram o olhar de diferentes segmentos. Estavam presentes a presidente do Conselho de Administração da Abramed, Claudia Cohn; o presidente da CNSaúde, Breno Monteiro; o superintendente executivo de Gestão de Rede do Bradesco, Paulo Cesar Prado Junior; o diretor de Desenvolvimento Setorial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Rodrigo Rodrigues de Aguiar; e o secretário-geral da Associação Médica Brasileira (AMB), Dr. Antônio Jorge Salomão.

Mudanças nas práticas de transparência, incorporação tecnológica eficiente, agilidade regulatória e interoperabilidade dos dados dos pacientes entre prestadores de saúde e modelos de remuneração apareceram nas discussões como fatores que precisam ser amadurecidos para viabilizar um setor de saúde mais ético e sustentável. “Para todas as profissões envolvidas na saúde, formação, ética e confiança no ecossistema, são três pilares muito importantes. Temos que dar prioridade a isso e nos preparar”, afirmou Claudia Cohn, presidente da Abramed.

“Devemos olhar o paciente como o beneficiário da prática ética”. Para Claudia, foi com esse objetivo que a Abramed teve uma iniciativa pioneira quando decidiu, entre seus associados, retirar clínicas que incentivavam a prática de pedidos de exames exagerados.

Uma lista do que precisa ser feito – a tradicional to do list, do inglês – foi a recomendação deixada por ela. Segundo a presidente da Abramed, os dez principais assuntos que devem ser aprimorados pela saúde suplementar são: tecnologia, técnica médica, estrutura para acesso, qualidade, tributos, legislação, relação na cadeia com operadoras, formação, confiança e ética.

“Não acho que estamos preparados”, afirmou categoricamente a executiva da área da saúde, ao ser questionada pelo moderador do painel, Wilson Shcolnik, gerente de Relações Institucionais do Grupo Fleury e diretor da Câmara Técnica da Abramed, sobre o seu posicionamento a respeito do tema. “O mercado diagnóstico, dentro da cadeia de saúde, é um dos que mais se transformam”, disse Claudia.

“Muitas mudanças já estão em curso e certamente influenciarão todos os agentes que atuam no sistema de saúde, tanto no público quanto no privado”, apontou o moderador Dr. Wilson Shcolnik.

Sustentabilidade, normatização e inovação

O futuro do setor envolve fortemente temas como sustentabilidade, normatização e inovação. De acordo com Claudia, mais do que nas barreiras de ferramentas e tecnologias, a transformação do setor esbarra nos limites das relações. “Na minha listinha de dez, tem muitas coisas para fazer, mas formação, ética e criação da confiança são as três que mais precisamos trabalhar. Devemos ter a preocupação urgente de estarmos bem preparados para formar melhor as pessoas. E não é só tecnicamente; não é só médico, biomédico, farmacêutico, biólogo, técnico de enfermagem e em patologia. Estamos falando em gestão”, disse.

“No Brasil, o setor da saúde representa uma empregabilidade maior que a da construção civil e a da agricultura. No entanto, o custo com saúde nas empresas só perde para a folha de pagamento e isso deve ser cuidado por todos nós. É preciso investir na sustentabilidade do setor, criando discussões, guias e marcadores para, de fato, gerar mudanças nos modelos de remuneração”, completou o presidente da CNSaúde, Breno Monteiro.

Ele também citou como exemplo de sustentabilidade um estudo realizado pelo Grupo Fleury e o Hospital Pérola Byington, divulgado em abril, no Congresso da Sociedade Brasileira de Mastologia. O teste genético Oncotype DX detalha o risco de agressividade do tumor da mama e ajuda a avaliar o melhor tratamento. A pesquisa apontou que ao menos 70% dos casos diagnosticados em estágio inicial não precisaria de quimioterapia.

Outra questão discutida no Seminário SINDHOSP e Grupo Fleury foi o aprimoramento da regulação setorial acerca da contratualização entre operadoras de planos e prestadores. O diretor de Desenvolvimento Setorial da ANS, Rodrigo Rodrigues de Aguiar, falou sobre a importância da sustentabilidade e da participação dos diversos atores do setor nas tomadas de decisão, como as reuniões promovidas pela Câmara Técnica de Contratualização e Relacionamento com Prestadores (Catec). “Em uma das reuniões, ambas as partes chegaram ao consenso de que a regulação prescritiva não irá resolver os problemas. Por isso, precisamos promover debates conciliadores para a condução das regulações”, explicou Aguiar.

A importância dos processos regulatórios também foi levantada, inclusive dos que dizem respeito ao sigilo de dados e à normatização da telemedicina. Para o secretário-geral da AMB, Dr. Antônio Jorge Salomão, a formação médica nas universidades teria de ser aprimorada para que os recém-formados estejam preparados para todas essas transformações. Na visão de Formiga, o benefício da telemedicina está no aumento da capacidade dos profissionais, não apenas para áreas remotas, mas também em regiões onde não há massa crítica para determinadas especialidades, todavia ainda assim precisam ser atendidas – como é o caso de pacientes que precisam de meios de locomoção para chegar a unidades distantes de suas residências.

Já sobre inovação, assunto da apresentação de Meirelles, Claudia lembrou que o segmento diagnóstico, além de se transformar em termos de tecnologia, também tem evoluído em processos e adaptabilidade.