Seminário Sustentabilidade Valor: a mentalidade de saúde em xeque

Abramed participa de painel durante evento promovido por Dasa e Jornal Valor Econômico

Não é de hoje que se discute um novo modelo de saúde para o Brasil no qual a prevenção é mais importante que a doença. Porém, chegamos a um ponto em que a insustentabilidade do setor caminha para prejudicar os agentes desse ecossistema, principalmente da saúde suplementar. Por isso, é necessária a promoção de uma nova mentalidade de saúde. Para ajudar na divulgação dessa iniciativa, a presidente do Conselho da Abramed, Claudia Cohn, participou do seminário A Sustentabilidade da Saúde pela Inovação, promovido pelo Dasa e pelo jornal Valor Econômico, dia 6/11, em São Paulo.

No painel “A nova mentalidade da saúde”, Claudia discutiu com representantes de associações do setor a necessidade urgente dessa mudança. A tendência mundial privilegia um modelo de prevenção, o que evita desperdício de procedimentos e possibilita maior acesso à saúde, além de melhorar a remuneração dos envolvidos na cadeia. Para ela, a informação é um dos pontos centrais da discussão.

“O diagnóstico em si passa por todas as cadeias, mas sempre precisa do dado, da informação. No momento em que falamos de nova mentalidade, não podemos nos ater a legados de sistemas que todos na saúde temos. Os sistemas vão continuar a existir e gerenciar a saúde como um todo. É preciso evoluir dessa visão para a de interoperabilidade, de integração de dados”, destacou.

Citado por outros profissionais como uma saída para a integração, o cadastro único também é uma opção na visão de Claudia. “Para chegar ao ponto de ter um sistema único, precisamos trabalhar no engajamento médico. O incentivo deve ser diferente para esse profissional, não só em reajuste, mas principalmente em como ele lida com o desfecho e a educação”, pontuou.

Confiança

Vista como um avanço, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) pode contribuir para acelerar o processo de criação de um cadastro único de informações de pacientes. “Falamos muito em confiança entre os players do setor, mas muitas vezes o paciente tem temor de o dado dele ser compartilhado por questões de segurança. A transparência e o engajamento é o que pode trazer a confiança desse paciente”, afirmou.

Segundo Claudia, todas as provocações para promover essa nova mentalidade são pautas frequentes da Abramed. “Transformamos tudo em açãona Abramed.Faremos em fevereiro um grande evento para continuar a discussão de adaptabilidade de todo o setor para que todos estejam adequados à lei. Essa adaptação é um passo importante para trazer a segurança e a transparência ao paciente.”

Para Fernando Torelly, conselheiro da Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), a questão da confiança é primordial. “É preciso que haja uma alternativa radical para o nosso modelo. Entre as alternativas, a principal é uma relação de confiança maior entre todas as partes do sistema.”Torelly exemplificou a sua argumentação ao citar o projeto de atenção primária implantado no Sírio-Libanês, o Médico da Família. Desenvolvido a princípio para todos os colaboradores e dependentes do hospital, ele foi ampliado para a população. “O impacto foi tão positivo que vamosoferecer para a sociedade. Abrimos um hospital no Banco Votorantim em fevereiro deste ano. Agora estamos com nove e até março de 2019 serão 25 unidades de saúde corporativa.”

Para Carlos Alfredo Lobo Jasmim, diretor de defesa profissional da Associação Médica Brasileira (AMB), o cadastro único é a única forma de evitar o custo sobreposto de exames, de novas consultas e novos tratamentos. “Nosso sistema é duplo para financiamento e único para utilização. Toda vez que dividimos o sistema, criamos um conflito financeiro. Os interesses são conflitantes. Precisamos ter um cadastro único de saúde com toda a informação na nuvem”, afirmou.

Solange Beatriz Carneiro Mendes, presidente da FenaSaúde, pontuou que o consumidor deve estar no centro da estratégia de interoperabilidade. “É preciso mostrar valor a ele na atenção primária em saúde. São dois desafios para a implementação: tem que convencer o usuário que existe valor nesse modelo e a segunda é a questão dos profissionais da saúde. Hoje os médicos generalistas são 1% dos especialistas. Carecemos também dessa formação profissional. Na atenção primária, é preciso olhar para esses dois pontos.”

Tendências point of care

A população brasileira está envelhecendo e é preciso ter um olhar atento ao cuidado ao paciente. Embora concorde que não há necessidade de pedidos indiscriminados de exames, Claudia cita uma tendência que está crescendo no país: os exames em farmácias.

“Quando falamos em exames em farmácias, é uma tendência, não só em farmácia, mas em outros locais como point ofcare. A RDC 302 para laboratórios fala sobre como tem que ser um posto de coleta, onde se pode colher, seja sangue ou outros materiais biológicos.Não dá para falar que será assim em farmácias ou que elas virarão hospitais em breve. As farmácias estão em consultas na Anvisapara que também tenham essas regras.”

Na abertura do evento, o CEO do Dasa, Pedro de Godoy Bueno, frisou que o motor da inovação é a necessidade. “Estamos começando a entrar em um momento no nosso setor de muita oportunidade, um momento único, porque a necessidade vai fazer a gente andar.Temos que mudar não só a forma de tratar o paciente. A gente nunca teve tantas ferramentas à disposição para viabilizar que isso seja feito de forma escalável, eficiente, com inteligência artificial e todas as tecnologias que estão surgindo. Acho que 2019 vai ser um ano decisivo para o nosso setor para realmente transformar tudo.”