Protagonismo é palavra-chave no futuro do diagnóstico

Debate mediado por Conrado Cavalcanti, vice-presidente da ABRAMED, foi realizado no 45º Congresso Brasileiro de Análises Clínicas

Reunidos no Rio de Janeiro para a 45ª edição do Congresso Brasileiro de Análises Clínicas, evento realizado pela SBAC (Sociedade Brasileira de Análises Clínicas) entre 17 e 20 de junho, os líderes do mercado de medicina diagnóstica participaram do debate “Perspectivas do Setor de Diagnóstico”. Promovido pela ABRAMED e mediado por Conrado Cavalcanti, vice-presidente da associação, o encontro apresentou oportunidades e entraves à sustentabilidade do setor nas próximas décadas.

“Nosso segmento é fundamental para a cadeia de saúde e somos muito valorizados pelos pacientes. Temos, sim, algumas ameaças, mas enxergamos muitas oportunidades”, declarou Cavalcanti ao abrir a conversa com os debatedores sobre os motivos que os levam a acreditar em um futuro promissor.

A importância da área para toda a cadeia de saúde foi enfatizada por Lídia Freire, CEO do Laboratório Sabin. Segundo ela, 70% das decisões clínicas e médicas passam pelo laboratório, o que comprova a necessidade do segmento dentro de todo o contexto de saúde do país. “Daqui a dez anos, talvez 90% dessas decisões passem por nossos serviços”, mencionou. Corroborando com esse pensamento, Edgar Gil Rizzatti, diretor-executivo médico e técnico do Grupo Fleury, declarou: “Temos acesso a tudo o que está sendo investigado. Quando colocamos esses dados dentro do contexto da evolução tecnológica, somando a eles a inteligência artificial e a riqueza dessas informações preditivas, chegamos a algo realmente interessante”.

Para Alessandro Ferreira, vice-presidente comercial e de marketing do Grupo Hermes Pardini, existem apenas duas certezas quanto ao futuro. “A primeira delas é que continuaremos extremamente estratégicos para a saúde do paciente. A segunda é que nos próximos cinco anos não iremos fazer as coisas da mesma maneira que fazemos hoje”, disse em referência à necessidade de o setor passar por reformulações e conscientizar-se de que os dados que podem ser obtidos pelas empresas do segmento são bastante valiosos. “Produzimos, dentro dos nossos laboratórios, dados epidemiológicos, de saúde, mensuráveis e quantitativos. Essas informações, quando bem trabalhadas, nos permitem assumir o protagonismo dentro da cadeia”, complementou.

Falando em protagonismo, Emerson Gasparetto, vice-presidente médico do Grupo DASA, aponta que a tecnologia deve ser a ferramenta utilizada para a revolução. “Realmente temos, no máximo, dez anos para continuar fazendo as coisas da forma como fazemos hoje. Para entendermos isso, é importante olharmos para outras indústrias mais desenvolvidas, como é o caso da indústria bancária brasileira, que tem grande destaque mundial.”

Uso racional de exames – Um dado improvável, mas que circula pelo setor de saúde, causa desconforto na medicina diagnóstica. Alguns eventos afirmam que 30% dos exames do país não são retirados pelos pacientes, o que indicaria um excesso de procedimentos. Porém, todos os debatedores questionam a veracidade e o embasamento desse percentual. “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade. Esse é um raciocínio falacioso que não é baseado em evidências”, declarou Rizzatti, apresentando que um estudo realizado em 2017 com mais de 80 laboratórios e 90 milhões de exames apontou que apenas 5,4% dos procedimentos não tiveram seus resultados acessados.

Outro ponto questionado por Cavalcanti diz respeito ao fato de que exames com resultados sem alterações muitas vezes são vistos como desperdício. Para Ferreira, a luta contra esse modo de pensar está em mostrar os reais efeitos da não realização dos testes nos custos da cadeia de saúde e na piora clínica dos pacientes. Além disso, Ferreira retomou a importância de o setor assumir responsabilidade na divulgação de dados corretos e um amplo protagonismo. “Essas informações surgem dentro das nossas empresas, pois somente nós temos acesso a dados sobre exames com ou sem alterações. Devemos, então, apresentar nossa visão sobre esses números, pois, ao mostrarmos o resultado da não realização desses exames, esses argumentos infundados e não científicos caem por terra”, disse elogiando a iniciativa da ABRAMED de realizar uma pesquisa junto aos seus associados para trazer, no mês de julho, dados detalhados sobre o setor de laboratórios.

Para a gestão focada no uso racional de exames, é preciso investir também na educação continuada. É o que pensa Lídia e o que o Laboratório Sabin vem idealizando. Para ela, é muito importante que os laboratórios, tendo tantas informações úteis, atuem como educadores. “Sabemos que a disciplina de laboratório não é prioridade nas escolas de medicina e que, muitas vezes, os doutores saem da universidade sem o conhecimento adequado da melhor aplicação dos exames. Com a tecnologia nos ajudando a encurtar distâncias, podemos mostrar para a classe médica, parceira importantíssima dos laboratórios, que temos informações e dados relevantes”, explicou exemplificando a política de exames imutáveis, que são aqueles testes que, uma vez feitos, não precisam ser repetidos. “Podemos dar essa informação ao médico antes de ele solicitar a repetição. Essa é uma de nossas iniciativas”, completou.

Crescimento e desafios – Em determinado momento do debate, todos os participantes puderam falar sobre seus projetos de crescimento e, de forma uníssona, as expectativas foram mantidas em um patamar elevado. Com investimentos tanto em processos de fusões e aquisições quanto em modelos de desenvolvimento orgânico, as marcas presentes apresentaram seus últimos números de expansão.

Saindo do rol de oportunidades e crescimento esperado para adentrar o âmbito dos principais entraves do setor, o grupo debateu a RDC nº 25/2001, que trata da importação, comercialização e doação de produtos para saúde usados e recondicionados; o Projeto de Lei nº 347/2018, sobre a jornada de trabalho de 30 horas semanais para equipes de enfermagem; e a possibilidade de realização de exames simples em redes de farmácia.

Além disso, o evento relembrou o caso da Theranos, empresa que em meados de 2016 ganhou os holofotes da mídia por afirmar ser capaz de, com apenas uma gota de sangue, realizar mais de 240 exames com custo inferior ao atual. Na ocasião, sem conseguir entregar o que prometia, a marca entrou em decadência rapidamente. Para Ferreira, é possível tirar uma lição muito importante do caso Theranos. “Pudemos observar que o consumidor está disposto a ter novas experiências. A Theranos só representa uma ameaça se não entendermos que essa é uma tendência.”

Por fim, durante a discussão junto ao público, a competitividade entre os grandes grupos e os pequenos e médios laboratórios foi questionada e os debatedores mostraram que não há qualquer ameaça, mas sim uma nova possibilidade de atuação em parceria na qual torna-se possível ofertar, a pacientes de locais distantes, uma ampla gama de exames. “Essa é uma relação sinérgica não só benéfica para os dois lados, mas também para os pacientes que ganham mais acesso aos novos exames diagnósticos”, comentou Cavalcanti que complementou alertando que, do ponto de vista associativo, “os interesses e dificuldades dos laboratórios de pequeno e médio porte são os mesmos dos grandes grupos, o que enfatiza a importância de ampliar o número de associados da ABRAMED para que ganhe ainda mais força e representatividade”.

O debate “Perspectivas do Setor de Diagnóstico” foi realizado em 19/06. A ABRAMED também contou com um estande institucional durante o Congresso Brasileiro de Análises Clínicas.