Inovação nas clínicas de medicina diagnóstica

* Por Marcelo R. de Abreu

Para atendimentos melhores e mais abrangentes, tratamentos mais efetivos, diagnósticos precoces e um setor muito mais sustentável, a saúde clama por inovações. O termo “inovação” acompanha nossa espécie Sapiens desde sempre, inovar foi definitivo para nossa sobrevivência. Assim como na natureza, para sobreviver, as empresas precisam inovar e adaptar-se aos ecossistemas (mercados) cada vez mais dinâmicos e competitivos.

O capitalismo liberal e a tecnologia fizeram o mercado de negócios mais veloz, reduziram a longevidade das empresas e foram implacáveis com quem não inovou. Nas companhias onde existe potencial para disrupção – no caso das marcas centradas em tecnologia –, a falta de inovação é mais crítica. Seria esse o nosso caso? Somos empresas do ramo da tecnologia? Se não, onde se insere a inovação quando falamos em clínicas de medicina diagnóstica?

A medicina diagnóstica brasileira é composta por uma grande gama de empresas integradas na evolução do setor (clínicas, grandes grupos consolidados e hospitais) com características muito diferentes entre si.  Por conta disso, é inevitável que as demandas por inovação também sejam distintas.

Diferentemente dos grandes grupos e hospitais renomados, que hoje despontam como os mais inovadores, as clínicas (pequenas e médias empresas de medicina diagnóstica) muitas vezes enfrentam um mindset mais conservador, cujo foco está na medicina tradicional e na luta pela redução de custos. E isso é totalmente compreensível nos dias de hoje, em um mercado bastante competitivo e com pouca margem para erro. Acompanhar o “estado da arte” pode quebrar essas empresas.

Mas nem sempre foi assim. Se olharmos a história das clínicas brasileiras, as mais reconhecidas, mais prestigiadas, entre a década de 1980 e o início do século XXI, tiveram ambientes de alta inovação, realizando exames modernos com técnicas mais avançadas e procedimentos que, muitas vezes, ultrapassavam em complexidade os hospitais de referência na época.

Os sócios, predominantemente médicos, tinham a inovação em seu DNA. Podemos observar isso em clínicas reconhecidas e seus líderes, que buscavam fontes externas de inovação, antecipando o mercado brasileiro por meio do entendimento do mercado internacional. Na época, com o mundo menos globalizado e a informação fluindo de forma mais lenta, a inovação trazida de fora tinha um impacto muito maior.

Nos dias atuais, em que o mercado é de difícil sobrevivência, há um paradoxo dentro da realidade das clínicas: a cautela é a chave para a manutenção da sustentabilidade, ao mesmo tempo que atua como barreira para a inovação. Com a globalização nivelando as inovações possíveis, atualmente, para inovar, essas clínicas precisam de garantias no custo-benefício.

A modernização, no entanto, faz-se necessária em qualquer cenário, e isso significa incorporar inovações que já foram testadas e consagradas. Essa já é uma percepção mesmo dos líderes e donos de clínicas mais conservadores, os quais entendem que não acompanhar esse fluxo pode levar ao desaparecimento de suas empresas. Portanto, buscam investimentos em sistemas digitais para marcação e entrega de exames; inteligência para automação de processos, por exemplo, o reconhecimento de voz; uso de PACS com portais para clientes; e telerradiologia e telemedicina. Quem não está acompanhando essas modernizações dentro do setor de medicina diagnóstica corre o risco de enfrentar dificuldades competitivas, depuração que já está acontecendo no mercado.

Os grandes grupos e os hospitais renomados do país surgem como espelhos para os menores. Observando suas inovações, as clínicas espalhadas pelo território brasileiro tentam filtrar e escolher as tecnologias com maiores chances de sucesso. Porém, mesmo que soe como uma surpresa, as grandes empresas ainda não possuem inovações realmente diferentes das menores. São, obviamente, aplicações em maior escala, mas nem sempre mais inovadoras.

E isso acontece devido ao atraso inerente ao setor de saúde, principalmente no que diz respeito a otimização de custos, automação e sistemas de informação inteligentes. O fato é que persiste uma carência por produtos inovadores e é justamente por isso, que as grandes marcas estão investindo em inovações próprias. Essa corrida pela liderança nessas iniciativas vem recebendo novos competidores que, integrando o ramo da inovação, estão na porta de entrada do mercado por perceber, no segmento de healthcare, excelentes oportunidades de negócios. São eles a Apple, a Google, a Amazon e tantas outras gigantes espalhadas pelo mundo.

Se inovação fosse sinônimo de tecnologia, ao observar o peso desses competidores, as clínicas considerariam o jogo perdido e encerrariam suas atividades. Inovar – principalmente dentro do setor de saúde – pode representar retirar um pouco da tecnologia dos processos, trazendo a humanização de volta ao debate. Quem tem perfil inovador está habituado a giros 180 graus que, muitas vezes, invertem o rumo dos negócios, voltando a padrões mais antigos readaptados ao mundo moderno.

Reduzir de tamanho, personalizar o atendimento, focar nas atividades com melhor desempenho ao invés de escalar o negócio, hoje, são ações que podem ser vistas como inovação. Interpretar o segmento de medicina diagnóstica como um setor “não tecnológico”, em que o serviço e as relações humanas são o foco principal é, sem sombra de dúvidas, inovador nos novos tempos.

A nova medicina dos “4Ps” (preditiva, proativa, personalizada e de precisão) está modificando as relações entre médicos e pacientes, bem como criando novos contratos comerciais. As mudanças demográficas também acontecem de forma acelerada em conjunto com as alterações epidemiológicas das sociedades. Tentar antever os caminhos, as transformações e os rumos desse novo cenário traz oportunidades para um ambiente de alta inovação onde as clínicas, por sua característica singular, podem ter boas chances de sucesso.

* Marcelo Rodrigues de Abreu é presidente do conselho do grupo SIR radiologia