Com otimismo cauteloso, seguimos rumo a 2019

Chegando ao final de mais um ano, o Brasil vivencia a expectativa de renovação em diversos aspectos. Apesar dessa virada aguardada para o início de 2019, muitos dos desafios do setor de saúde permanecem como reflexos do que gerimos ao longo das últimas décadas, que promoveram inúmeras inovações tecnológicas capazes de revolucionar soluções e processos e, também, mudanças bastante significativas no perfil epidemiológico das comunidades.

Sem sombra de dúvidas, o cenário que foi desenhado após as eleições presidenciais nos deixa com um misto de sentimentos. Se por um lado acreditamos que as mudanças que estão por vir somadas à renovação do quadro político brasileiro – assim que o novo presidente eleito assumir seu cargo, em 1º de janeiro – podem gerar um ambiente positivo; por outro, seguimos com a cautela de quem ainda vivencia as consequências de uma vasta crise e se resguarda de possíveis alterações bruscas de rumo.

Sabemos que a mudança política que encaramos de quatro em quatro anos influencia diretamente muitos setores que regem a cadeia de saúde. Essa influência atinge tanto as agências reguladoras – ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) – quanto o Ministério da Saúde, que passa por uma mudança de líder e de executivos que, muitas vezes, chegam com ideais diferentes daqueles que estavam sendo aplicados. Não sabemos como vai ser e, por conta disso, não podemos nos antecipar em nenhuma ação mais estratégica. Hoje, mediante todo o panorama brasileiro, a melhor alternativa é o otimismo cauteloso.

Na saúde suplementar, que atende cerca de 47,5 milhões de brasileiros, seguiremos na luta contra o desperdício em todos os pontos cruciais da cadeia. Para lutar, precisamos dar ainda mais relevância aos debates sobre os impactos do overuse e do underuse – que são a superutilização e a subutilização de exames de diagnóstico – questões que têm interferência direta na sustentabilidade do sistema.

É indispensável que consigamos unificar ainda mais todos os envolvidos no segmento, incluindo a classe médica. São os médicos os grandes atores dos pedidos de exame e, também, os grandes responsáveis por garantir que os protocolos estejam sendo seguidos para uma medicina preventiva de qualidade.

Quando o overuse ganha corpo, planos de saúde são prejudicados pela elevação do custo por beneficiário ao mesmo tempo que pacientes são expostos a exames desnecessários. Quando o underuse se instala, as duas pontas voltam a perder: a prevenção fica carente; o paciente, pouco protegido; e o plano de saúde mais uma vez se depara com os altos custos de tratamentos que poderiam ser evitados.

É para garantir que as solicitações de exames sejam feitas com sabedoria que a  Abim (American Board of Internal Medicine) criou a Choosing Wisely, uma iniciativa que visa promover a comunicação entre médicos e pacientes, favorecendo a tomada de decisão por discutir as intervenções com clareza, além de incentivar escolhas baseadas em evidências, não duplicidade de exames, ausência de danos e verificação da real necessidade daquele procedimento.

Para que todos os envolvidos na cadeia de saúde estejam alinhados com esse desafio que precisa ser vencido, temos de rever também a necessidade de investimentos em educação continuada para a criação de gestores eficazes capazes de transformar o atual sistema de saúde, tanto na esfera particular quanto na pública, visto que elas são complementares e indissociáveis.

O fator humano não pode ser um empecilho ao desenvolvimento, então precisamos encarar que a capacitação profissional é um dos grandes desafios da saúde em 2019. O sistema de educação em saúde precisa formar gestores com conhecimento amplo de todo o escopo do setor para garantir que nenhuma ponta seja descoberta. Precisamos alavancar a união do segmento para que o paciente nunca seja o principal prejudicado. Equilíbrio e conhecimento serão as palavras-chave para a tão almejada sustentabilidade.

E esses gestores que assumirão as competências necessárias para que o Brasil seja capaz de garantir uma saúde eficaz e eficiente para toda a sua população também terão de lidar com uma novidade que está movimentando todas as empresas atuantes no setor. A Lei Geral de Proteção de Dados foi sancionada pelo presidente Michel Temer e o ano de 2019 será crucial para que todas as empresas brasileiras invistam tempo e recursos para modificar a forma como lidam com os dados pessoais tanto de pacientes quanto de colaboradores. Com tantas dúvidas e interpretações possíveis geradas pelo texto da legislação, os desafios são enormes e serão ainda maiores a cada passo dado rumo à adaptação. O que não poderemos é adiar essa mudança, pois em fevereiro de 2020 todos nós estaremos sujeitos às penalidades pesadas, que acarretarão ainda mais prejuízos a um sistema já instável.

Paralelamente a isso, é preciso garantir o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Com a inteligência artificial cada vez mais evoluída, o sistema de saúde ganha em otimização de recursos, contribuindo para a incessante busca pela sustentabilidade. O paciente ganha com a garantia de resultados mais assertivos aos seus exames de diagnóstico. E o Brasil ganha em eficiência e reconhecimento por oferecer, de forma universal e indiscriminada, uma saúde de qualidade a todos os seus cidadãos.

*Priscilla Franklim Martins é diretora-executiva da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed).